Expectativas

Minha mãe, quando olha as suas fotos antigas, sempre diz que naquele tempo não tinha um pingo de juízo na cabeça. Que hoje não teria coragem de fazer muito do que tinha feito.Eu fazia pouco caso.Achava que nunca seria o meu dia de olhar para as fotos antigas e dizer que naquele tempo eu não tinha um pingo de juízo na cabeça e que hoje não teria coragem de fazer muito do que  tinha feito.

Pensava que o meu futuro iria ser exatamente como eu quisesse.Fazia planos regularmente. Passava horas lendo revista Casa Claudia, em dúvida entre um Pequeno Mas Bem Distribuído Apartamento e em Uma Casa No Coração da Cidade. Se você me perguntasse,eu saberia dizer quais louças haveriam na minha mesa, que tipo de toalha eu usaria, que prato eu serviria num jantar informal com amigos do meu marido.  Eu queria ser impecável como uma freira,ter amigos como uma socialite  e ser bonita como a Barbie Rio de Janeiro.

Mas o tempo veio. Não fui impecável, não fiz tantos amigos, não me transformei numa Barbie. O Tempo veio me cutucar, avisando que antes eu não tinha um pingo de juízo na cabeça. Dizendo: Hoje, você não tem coragem de fazer muitas das coisas que fazia.

O Tempo sempre vem. Canalha. Com seu jeito de agregado, deixando a toalha molhada em cima da cama e o tubo de creme dental apertado no meio. Depredando os móveis da minha casa, riscando a pintura do meu carro. Deixando as pessoas que eu amo cansadas,corcundas, grisalhas.

Sem ser convidado, senta no meu sofá, lê os meus livros, deita na minha cama. Põe no meu colo as minhas fotos e me pergunta: Onde é que estavas com a cabeça? A minha cabeça, respondo, estava muito ocupada em fazer planos. O Tempo me abraça. Passa.

Nessas horas, ele fica tão bonito. Me olha nos olhos e me confunde toda. Ah, esse tratante. Não sei mais se o amo ou se o odeio. Ele diz que não importa. Que sempre estará comigo, para dizer nunca vai ser bem assim como eu quero.

Conforme-se.

Alexandre estacionou a camionete coladinha na calçada, numa baliza rápida e com um quê de descuidada. Ele trazia muitos, muitos cocos na caçamba.

Algumas pessoas dissolvem sua irritação nas coisas mais diminutas e insólitas – uma vela queimando, um trecho de rio gelado, os pássaros em bandos, e por ai vai.Alexandre  encontrava paz nos cocos- quando mais, melhor. Suzana sabia disso e teve medo ao espiar pela janela da sala e ver tantos cocos no carro. Com o que ele poderia ter se aborrecido tanto, a pergunta martelava em sua cabeça.

-Nessa semana, só vamos comer coco.- disse ele, ao entrar em casa.

Suzana ficou meio abalada, mas resolveu não questionar. Sabia que o noivo tinhas dessas loucuras.Tentou imaginar um cardápio baseado em coco, ficou planejando receitas de manjares e tortas.Era de sua natureza ser assim, minúscula. Ela nunca se impunha em nada, era o tipo de pessoa que falava baixo e que comia devagar.

O noivo  não tocou mais no assunto, encarou como se fosse a coisa mais natural. Quando batia a fome, abria um coco. E ponto. Suzana tinha curiosidade, mas não queria irritar o marido.

Obviamente, a grande movimentação de coco começou a chamar a atenção da vizinhança. De onde veio tudo isso, não se cansavam de perguntar. Criavam-se estórias,teorias, o casalzinho era um prato cheio para as más línguas. Os mais irritantes os convidavam para tomar uma água de coco, quase todos os dias.

A insólita dieta passou de uma semana para um mês, de um mês para uns meses, e toda a criatividade gastronômica não era suficiente para inovar o cardápio de Suzana e Alexandre. A noiva suportou bravamente as mesmices, as indagações, as carências nutricionais sem fazer sequer uma indagação. Tinha dúvidas,  e como as tinha, mas era maior do que ela o seu medo de machucar Alexandre. E era isso que ele realmente amava nela.Sim, por que não amamos as pessoas, mas é alguma coisa nessas pessoas o objeto do nosso amor.

E foi assim que Suzana, como muitas outras pessoas,levou uma dúvida para o túmulo. Sim, houve o dia em que Alexandre desistiu dos cocos,mas essa história continua sem final, assim como nunca saberemos o fim que vai levar as pessoas minúsculas e que comem devagar.Conforme-se.