Telefonema

Irina ouviu o telefone tocar,primeiro em sonho depois acordada. Quem seria o infeliz a interromper seu sono,pensou ela, que levantou-se pesadona,como se fosse feita de cimento. Do outro lado da linha ninguém se manifestou, e Irina tampouco disse alô. Amigos e amigos de amigos já tinham lhe advertido que seqüestradores de telefone usavam a técnica de ligar  para capturar a voz da vitima. Ela imaginava o seu Alô sendo analisado por programas específicos em computadores de bandidos, em cujas telas estariam registradas, em gráficos de barras, a altura, o timbre, tudo o que permitisse um criminoso imitar sua voz com alguma semelhança. Não sabia se desligava ou não, cogitou ate se não era alguém que ligou, mas que tinha as mãos ocupadas e estava tentando segurar o fone com os ombros e o pescoço, embora ela mesma duvidasse muito disso. Na verdade, sempre imaginava que poderia ser Ele no outro lado da linha. Por isso Irina permaneceu calada, tensa e com a mão suando no fone, por ansiedade em estar numa possível conexão com um seqüestrador de telefone ou com o Homem que poderia ter sido O Homem da sua vida.

Enfim, uma voz de mulher perguntou por Irina Barbalho Lins, do consultório da dentista Vanda Franciscano. Irina disse que estava de férias em Costa do Sauipe e só voltava daqui a uma semana. Não se consultava com Dra.Franciscano há anos. E, ademais, adorava mentir para secretarias. Ela voltou para a cama, com menos sono, tentando continuar o sonho que estava tendo antes do telefonema, sendo ai malsucedida como sempre.

Mal sabia ela que, uma semana e um dia depois, sua mãe seria acordada as três da manha com um telefonema de seqüestradores, dizendo que Irina estava com eles e exigindo pagamento de resgate. Sim amigos, sua voz havia sido grampeada na ligação com a secretaria da dentista, que na verdade era Ele, o Homem que poderia ter sido O Homem de sua vida, imitando voz de secretaria de dentista. Irina nunca estivera tão certa em suas suposições como quando hesitou em dizer alô naquele dia, ao telefone,pois do outro lado da linha era,ao mesmo tempo, o Homem que poderia ter sido O Homem da sua vida e um seqüestrador de telefone.O que só prova que estar certa nem sempre basta .E que Homens que eram para ser Homens da sua vida e por algum motivo não foram, era porque não eram para ser mesmo.

 

 

Um quê

Ele não tinha certeza de como tudo tinha acabado.Mas lá estavam eles.Separados.

E sabe o que as separações tem de pior? O orgulho.Não adianta dizer que acabou e pronto,deram-se apertos de mãos e desejaram-se os melhores desejos.Sempre sobram migalhas de amor próprio e rancor. Logo estariam falando mal um do outro, aquele cafajeste e aquelazinha.

Foi mais ou menos assim que aconteceu.

Fábio estava nas nuvens. Faltava uma semana para sua festa de noivado.Sem hesitar,já tinha reservado um salão de hotel, testado cardápio,selecionado os convidados e decidido a decoração(só ficou na dúvida entre rosa e champagne ou pérola e nude). Faltava apenas pedir a mão da Malu(queria um surpresa!).

Ah, a Malu era diferente.A Malu tinha um quê…Um quê de que? Não  sabia.Mas ela tinha algo que a tornava muito… desejável. De fato, Fábio não conseguia enxergar um futuro sem Malu ao seu lado. Toleraria todos os seus caprichos, todas as suas manias, todos os seus defeitos. Sabia que eram muito jovens, mas não tinha medo da velhice.Achava que envelhecer com ela seria uma benção. Mesmo quando viessem as rugas, as quedas capilares e as calcinhas cor-da-pele. Queria casar com ela e Ponto.

Fábio tinha as alianças no bolso, tentando pensar em como fazer o pedido.Mas todas a vezes que ensaiava algum, distraia-se pensando em como seriam felizes os dois, juntos! Ele seria promovido e ela…ela tinha um quê!

Acabou que, no dia tal, na hora xis, ele teve que fazer de improviso.

-Malu, temos que conversar sério.Tenho uma coisa para te contar.
Mas ela não quis saber.Tinha também algo pra contar.
-Fábio…Eu queria casar com você.
-Era isso que eu…
-Eu ia te pedir em casamento.Mas não vou mais.
-Ahm…
-Sabe,eu tinha preparado tudo.Não hesitei em nenhum momento. Estive nas nuvens!Já tinha reservado um salão de hotel,testado o cardápio,selecionado os convidados e decidido a decoração.Só fiquei em dúvida entre os esquemas rosa e champagne e o pérola e nude.
-Por que,Malu? Por que?
-Não sei…parece que está sempre ensaiando o que falar. Isso é um sinal de que a nossa relação está se desgastando: não há mais espontaneidade! Casados, seríamos estranhos um ao outro…Além do mais, você perdeu aquilo que eu mais gostava…
-E o que era?
-Não sei…Era alguma coisa assim…Um quê de…Não sei.Mas você perdeu.

Quer dizer que ELE tinha um quê? E o perdera?
Se soubesse que tinha esse quê, nunca se deixaria perdê-lo.Ela devia ter avisado antes.

-Eu tinha um quê…
-É,você tinha.E eu tenho um compromisso agora. Foi bom enquanto durou Fábio.A gente se vê por ai.
-Adeus…
Fábio estava confuso. E as alianças no seu bolso? E o hotel, os convidados e a decoração? Para onde fora o seu casamento?

Ele a viu pedir um taxi e partir avenida acima. Ele a perdera…Mas quem se importa? Aquelazinha. Ele também podia ter um quê.Aliás, tinha um. Só precisava reencontrá-lo.