De sonhos, triângulos e Stalker

6 Jan stalker

 

Vocês já assistiram ao filme “Stalker” (União Soviética, 1979, dirigido por Andrei Tarkovsky)? A história do filme é, a grosso modo  a seguinte: A queda de um meteorito ou coisa que o valha criou A Zona, um local estranho e cheio de armadilhas, ondas acredita-se haver o Quarto, onde todos os desejos se tornam realidade. Apenas os Stalkers conseguem sobreviver na Zona. Por isso, um Escritor famoso e um Professor pediram a um Stalker que os guiassem pela Zona até o Quarto, mesmo que não soubessem muito bem o que procuravam.

Não vou me ater muito ao enredo do filme, pois não é disso que quero falar(até porque não entendo de crítica nem de cinema). Quero falar do Escritor.Uma das minhas cenas preferidas acontece ainda no começo do filme, quando o Escritor conversa com uma mulher,  que pretende acompanhá-lo em sua expedição à Zona:

(Escritor) Meu amor, o mundo é enfadonho até demais. Não há nada: nem telepatia, nem fantasmas, nem discos voadores, nada disso existe. O mundo é regido pelas leis do ferro fundido. É triste. Infelizmente, estas leis são invioláveis. Elas não sabem violar-se a si próprias. Não conte com discos voadores, seria demasiado empolgante.

(Mulher) E o triângulo das Bermudas? não me quererá dizer que…

(Mulher) Quero. Não existe nenhum triângulo das Bermudas, Existe apenas o triângulo ABC semelhante ao triângulo A’B'C’. Não sente a tristeza fatal dessa afirmação?

Uma desilusão é,brilhante dedução, uma ilusão desfeita. Estar desiludido requer que em algum momento tenha havido ilusão. E isso me faz imaginar que ilusão deve ter tido o Escritor para que pensasse de modo tão pessimista, já que,no filme, ele era uma pessoa realizada e tinha o mundo a seus pés. Embora eu já saiba a resposta, reluto em admitir, pois sei que preferiria não saber. A ilusão dele, e creio que a de todos nós, é que acreditamos que a nossa realização pessoal em coisas mundanas vai nos trazer paz de espírito.

Quem nunca empurrou os problemas de hoje para um futuro distante, etéreo, do Quando eu estiver estabilizado, Quando eu conseguir um emprego, Quando eu passar no vestibular…? Como se contra-cheques  fossem preencher o vazio da nossa alma que reluta em permanecer vazio…Ali, onde deveria haver fé.

Eu sinto muito bem a tristeza fatal da afirmação. Há por acaso algo mais triste do que uma pessoa sem esperanças? Uma pessoa que, moldada pelo tempo, tornou-se insensível, invulnerável, quadrada? Isso me faz pensar nas pessoas que chegaram ao topo, nos rostos em páginas de revistas…Será que eles ainda…sonham? Ou será que apenas têm vontades, desejos, e procuram tão somente a realização imediata, um Quarto onde tudo se torna realidade?

(Escritor) Como posso saber o nome daquilo que quero? Como posso saber que, no fundo, não quero o que quero? Ou que, digamos, não quero de fato o que não quero? São coisas efêmeras, basta dar-lhes um nome, e perdem o sentido. Este derrama-se como uma água viva ao Sol. A minha consciência quer a vitória do vegetarianismo por todo o mundo, mas o meu subconsciente morre por um bife suculento. E eu? O que eu quero? Dominar o mundo, no mínimo.

Enquanto eu não tomar uma atitude, enquanto eu me submeter “às leis do ferro fundido”, caminho para me tornar cada vez mais parecida com o Escritor. Obrigada, Stalker, por me lembrar, nesse início de ano, de tudo o que eu não quero ser.

Tags: , ,

Novos começos

2 Jan

A razão é que, ao contrário de uma velha fórmula absurda, não é a letra       que mata; a letra dá vida; o espírito é que é objeto de controvérsia, de dúvida, de interpretação, e conseguintemente de luta e de morte.

Machado de  Assis em  Memórias Póstumas de Brás Cubas

Não foram poucas as vezes em que eu me pus cara a cara com um papel em branco e disse:

-É hoje.

Não foram poucas as vezes em que passei muito tempo debruçada sobre um papel em branco, com as ideias certas na cabeça, mas sem conseguir passar nada para o papel. Quantas vezes eu não tentei me concentrar, limpar a mente, buscar inspiração, só para que as ideias saíssem de seu esconderijo nas esquinas da minha mente, e nada aconteceu. Começava a escrever (a primeira letra era quase uma iluminura de tão caprichosa),mas não passava de uma frase. Às vezes um parágrafo, e só.Desvirginei assim muitas folhas de papel, que, desonradas, transformei em barquinhos e corações alados.

Não foram poucas as vezes em que cheguei à conclusão de que eu não conseguia mais organizar meu pensamento em um papel em branco simplesmente porque estava bagunçada por dentro. Tudo em mim estava fora do lugar, os pensamentos não se encadeavam mais: apenas frases soltas, desejos, conceitos.

A frase que abre o artigo sempre me fascinou, desde a primeira vez que eu li as Memórias Póstumas, e isso foi quando eu tinha uns treze anos. Eu tinha um medo danado do Machado, lembro que comecei a ler o livro como se fosse o manuscrito da Illíada. Com a leitura vi que os meus medos eram infundados, muito embora não seja o meu Machado preferido( Dom Casmurro é imbatível!). No entanto, só ontem pude realmente entender o significado das suas palavras.

já estava marcado ^^

Eu estava triste por causa do bloqueio criativo e tudo mais. Sempre que  tentava escrever as ideias morriam ou o texto se desviava completamente do proposto. Prostituí pensamentos sinceros para que coubessem nos limites da minha criatividade , e todo o pouco que eu conseguia expressar era falso,inventado. Será que tudo o que eu havia lido em toda a minha vida eram também ideias prostituídas? Todos os ensaios, textos motivacionais, poemas, tudo uma grande enganação, escrever só por escrever?

Então veio na minha cabeça : “não é a letra que mata; a letra dá vida”. Fiquei remoendo essa frase, tentando lembrar do resto, sem sucesso. Não é a letra que mata, a letra dá vida. Parecia engraçado, pois a letra tinha abortado todas as minha ideias quando elas estavam a ponto de nascer no papel. Fui procurar no livro o trecho em questão e o achei, já estava sublinhado. A confirmação estava toda ali, e eu tinha esquecido: o espírito é que é objeto de controvérsia, de dúvida, de interpretação, e conseguintemente de dúvida e de morte. Era eu a assassina das minhas próprias ideias.

Não me entendam mal, 2011 foi o melhor ano da minha vida.Mas sei que embora eu tenha me divertido como nunca,  não fui muito correta. Pisei um pouco nas pessoas, fiz vista grossa para alguns vícios, tive preguiça e senti cólera, me deixei levar por vaidades, acreditei em elogios e me acomodei. Perdão a todos aqueles que atingi com a minha ironia e o e meu convencimento irredutível. É que nunca consegui matar a Cathy Earnshaw que existe em mim,e vez por outra ela acaba se revelando.

Enquanto o ano ainda é novo e eu ainda sinto vontade de mudar para melhor (por que essa disposição vai passando com os meses), vou me permitir acreditar em novos começos. A minha meta para 2012 é destruir tudo o que há de ruim e falso em mim e domar a animosidade do meu espírito, para que a letra não mais mate e sim dê vida.

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.