Vocês já assistiram ao filme “Stalker” (União Soviética, 1979, dirigido por Andrei Tarkovsky)? A história do filme é, a grosso modo a seguinte: A queda de um meteorito ou coisa que o valha criou A Zona, um local estranho e cheio de armadilhas, ondas acredita-se haver o Quarto, onde todos os desejos se tornam realidade. Apenas os Stalkers conseguem sobreviver na Zona. Por isso, um Escritor famoso e um Professor pediram a um Stalker que os guiassem pela Zona até o Quarto, mesmo que não soubessem muito bem o que procuravam.
Não vou me ater muito ao enredo do filme, pois não é disso que quero falar(até porque não entendo de crítica nem de cinema). Quero falar do Escritor.Uma das minhas cenas preferidas acontece ainda no começo do filme, quando o Escritor conversa com uma mulher, que pretende acompanhá-lo em sua expedição à Zona:
(Escritor) Meu amor, o mundo é enfadonho até demais. Não há nada: nem telepatia, nem fantasmas, nem discos voadores, nada disso existe. O mundo é regido pelas leis do ferro fundido. É triste. Infelizmente, estas leis são invioláveis. Elas não sabem violar-se a si próprias. Não conte com discos voadores, seria demasiado empolgante.
(Mulher) E o triângulo das Bermudas? não me quererá dizer que…
(Mulher) Quero. Não existe nenhum triângulo das Bermudas, Existe apenas o triângulo ABC semelhante ao triângulo A’B'C’. Não sente a tristeza fatal dessa afirmação?
Uma desilusão é,brilhante dedução, uma ilusão desfeita. Estar desiludido requer que em algum momento tenha havido ilusão. E isso me faz imaginar que ilusão deve ter tido o Escritor para que pensasse de modo tão pessimista, já que,no filme, ele era uma pessoa realizada e tinha o mundo a seus pés. Embora eu já saiba a resposta, reluto em admitir, pois sei que preferiria não saber. A ilusão dele, e creio que a de todos nós, é que acreditamos que a nossa realização pessoal em coisas mundanas vai nos trazer paz de espírito.
Quem nunca empurrou os problemas de hoje para um futuro distante, etéreo, do Quando eu estiver estabilizado, Quando eu conseguir um emprego, Quando eu passar no vestibular…? Como se contra-cheques fossem preencher o vazio da nossa alma que reluta em permanecer vazio…Ali, onde deveria haver fé.
Eu sinto muito bem a tristeza fatal da afirmação. Há por acaso algo mais triste do que uma pessoa sem esperanças? Uma pessoa que, moldada pelo tempo, tornou-se insensível, invulnerável, quadrada? Isso me faz pensar nas pessoas que chegaram ao topo, nos rostos em páginas de revistas…Será que eles ainda…sonham? Ou será que apenas têm vontades, desejos, e procuram tão somente a realização imediata, um Quarto onde tudo se torna realidade?
(Escritor) Como posso saber o nome daquilo que quero? Como posso saber que, no fundo, não quero o que quero? Ou que, digamos, não quero de fato o que não quero? São coisas efêmeras, basta dar-lhes um nome, e perdem o sentido. Este derrama-se como uma água viva ao Sol. A minha consciência quer a vitória do vegetarianismo por todo o mundo, mas o meu subconsciente morre por um bife suculento. E eu? O que eu quero? Dominar o mundo, no mínimo.
Enquanto eu não tomar uma atitude, enquanto eu me submeter “às leis do ferro fundido”, caminho para me tornar cada vez mais parecida com o Escritor. Obrigada, Stalker, por me lembrar, nesse início de ano, de tudo o que eu não quero ser.
Tags: psicológicos, Stalker, Tarkovisky


